(por Fernanda Dourado)
Fazer política na Bahia exige compreender uma realidade muito particular.
Maquiavel já ensinava que a política não acontece no mundo ideal, mas dentro das circunstâncias concretas de cada tempo. E talvez essa seja uma boa chave para compreender o cenário baiano.
O PT governa o estado ininterruptamente desde 2007 e construiu forte capilaridade no interior. Ao mesmo tempo, a oposição mantém força eleitoral e a direita ampliou sua presença nos últimos anos.
É nesse tabuleiro que a trajetória de João Bacelar merece ser observada.
Bacelar foi eleito deputado federal em 2006 pelo antigo PL, atravessou a transformação da legenda em PR e acompanhou diferentes fases dessa estrutura partidária.
Um episódio ajuda a dimensionar essa relação.
Em 2016, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, Bacelar votou não e deixou uma frase registrada na Câmara:
“Eu poderia ser oportunista, mas não sou em virtude do meu posicionamento partidário. Meu voto é não.”
Há uma palavra importante nessa declaração: partidário.
Não se trata de reabrir o debate sobre o impeachment, mas de registrar que, naquele momento, Bacelar utilizou sua posição partidária para explicar publicamente uma decisão de enorme peso político.
Não é uma interpretação. É história.
Cinco anos depois, Jair Bolsonaro ingressaria no PL e se tornaria sua principal liderança nacional, ampliando a força política e eleitoral da legenda.
São tempos diferentes de um partido que também atravessou diferentes fases.
E existe a Bahia.
Um parlamentar baiano representa municípios administrados por diferentes forças, precisa dialogar com prefeitos e mantém relações institucionais com governos estadual e federal.
E talvez a Bahia seja um dos exemplos mais claros dessa complexidade.
À frente dessa estrutura está Valdemar Costa Neto, um dos dirigentes mais experientes da política partidária brasileira. Ao longo dos diferentes momentos do PL — dentro e fora de sua direção formal — acompanhou períodos de maior e menor protagonismo da legenda. E uma característica importante dessa trajetória foi compreender que um partido nacional também é formado pelas particularidades políticas de cada estado.
E, na Bahia, circunstâncias políticas nunca foram um detalhe.
Hoje, o PL vive outro momento, com novas lideranças e enorme força nacional. Mas a grandeza de um partido também está na capacidade de reconhecer aqueles que permaneceram em sua trajetória quando as circunstâncias eram outras.
Como ensina Sun Tzu, não basta conhecer as próprias forças; é preciso compreender o terreno em que se está.
E, na política, a Bahia é um terreno muito particular.
Partidos têm suas diretrizes. Lideranças nacionais têm seu peso. Mas quem faz política na Bahia precisa conhecer o terreno baiano.
Porque, no fim, não basta compreender o partido, nem apenas o adversário. É preciso compreender onde a política acontece.
E a Bahia tem seu próprio tabuleiro.
———————————————————
Fernanda Dourado é jornalista política há mais de 20 anos, apresentadora de TV e editora-chefe do Bahia Repórter. Acompanha a política baiana e nacional com uma linha editorial independente, imparcial e sem militância. Ao longo da carreira, destacou-se por entrevistas com algumas das principais autoridades e lideranças políticas do país. Com forte presença nas redes sociais, uma única publicação de sua autoria ultrapassou 1,3 milhão de visualizações, consolidando também sua presença no jornalismo político digital.