(Por Fernanda Dourado) – Artigo publicado nesta quarta-feira (19)
O tabuleiro político baiano mudou em velocidade impressionante nas últimas semanas — e não é exagero dizer que a eleição de 2026 já começou a ser disputada nos bastidores. Para o jornalismo político, que precisa observar tudo com isenção, precisão e faro apurado, este é um período eletrizante: cada gesto, cada ruptura e cada movimento inesperado abre novas leituras e revela novas intenções.
Em 7 de novembro, o deputado estadual e ex-presidente da Assembleia Legislativa, Nelson Leal (PP), rompeu com o governo Jerônimo Rodrigues, desistiu da reeleição e assumiu a coordenação da campanha de ACM Neto, justificando que “a Bahia precisa de mudança”. Menos de duas semanas depois, nesta terça (18), o deputado Cafu Barreto (PSD), ex-vice-líder do governo, também deixou a base e aderiu ao projeto de Neto, reafirmando sua decisão em uma coletiva de imprensa bastante disputada.
Ambos ajudaram a construir o governo que agora deixam para trás. E é justamente aí que os bastidores começam a pulsar de forma mais intensa. A política não trabalha com vácuos: quando um governo forte recebe um golpe, a reação é inevitável — o contragolpe, sem dúvida alguma, já está sendo planejado. Reacomodação, substituições, reforços de discurso, busca por alianças e tentativas de estancar desgaste fazem parte do jogo. E acompanhar esse movimento exige olhar atento e frio.
Nelson Leal, por exemplo, chega à oposição com um valor político muito específico: articulação silenciosa. Comedido, respeitado e extremamente hábil, é conhecido como um articulador nato, capaz de conversar com diferentes grupos e reduzir tensões. Não à toa, muitas vezes evita a imprensa, preferindo operar nos bastidores. Por isso, chamou ainda mais atenção quando decidiu falar na coletiva de ACM Neto, afirmando que a campanha será “bem diferente da de quatro anos atrás”.
A decisão de Cafu Barreto mexe com outro terreno estratégico: a região de Irecê, formada por 22 municípios e cerca de 400 mil habitantes. Na eleição passada, a campanha de ACM Neto na região foi fraca — faltou militância, mobilização e energia de rua. Cafu, porém, tem influência consolidada e pode reforçar o comando regional. Na coletiva, inclusive, questionei diretamente se ele assumiria a coordenação da área e como pretende transformar o cenário que vi quatro anos atrás, quando os comitês de Neto estavam fechados e os de Jerônimo lotados. Ele respondeu que haverá vários coordenadores na região e que vai mobilizar a população.
O fato é que Jerônimo Rodrigues e ACM Neto são os protagonistas inevitáveis da disputa de 2026, e os bastidores demonstram isso diariamente. Cada “sim” e cada “não”, cada saída e cada adesão, cada aparição pública e cada silêncio calculado vira combustível para análises, especulações e leituras nacionais.
E é exatamente nesse ambiente que o jornalismo político se realiza. É uma disputa fascinante de acompanhar, porque os bastidores fervem, os movimentos ganham ritmo acelerado e as hipóteses se multiplicam. O jornalista se delicia ao observar o jogo em sua forma mais pura: articulações, golpes, contragolpes, reposicionamentos e estratégias que nascem antes mesmo de chegarem à opinião pública.
O ex-prefeito de Irecê, Nobelino Moitinho Dourado, costumava dizer que eleição é como colheita de feijão: “você só sabe depois que apura”. Mas até lá, os movimentos já mostram que a Bahia entrou de vez no clima — e o bastidor político segue sendo o palco mais rico para quem observa com rigor, independência e atenção aos detalhes.
E agora, com duas perdas importantes, resta a grande pergunta que agita os corredores: qual será o contragolpe do governo — e quem o governo tentará puxar da base de ACM Neto?
Afinal, não seria a primeira vez que o governo reage com força. Em 2022, quando o PP rompeu com o então governador Rui Costa, o governo não deixou barato: trouxe para seu lado um aliado de primeira ordem de Neto — o então presidente da Câmara Municipal de Salvador, Geraldo Júnior, que não apenas aderiu ao projeto, como hoje é o vice-governador da Bahia.
Se aquele movimento mudou o jogo há dois anos, fica no ar a dúvida que faz os bastidores borbulharem: quem será o próximo nome que o governo tentará arrancar do entorno de ACM Neto — e quando esse movimento começará?
Fernanda Dourado é editora-chefe do site Bahia Repórter, consultora e especialista em política, há mais de 20 anos. A jornalista é apresentadora e repórter da TV ALBA – Assembleia Legislativa da Bahia – onde apresenta programas políticos desde a fundação da emissora. Escreve neste espaço às quartas-feiras; Instagram e TikTok: @fernandadouradoreporter