Por Fernanda Dourado
Em entrevista recente durante o lançamento do programa Roda, o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), afirmou que “quem decide a eleição é o povo e não os prefeitos”. A fala veio em resposta à migração política de Dr. Juvio, prefeito de Mansidão, que anunciou apoio ao governador Jerônimo Rodrigues (PT), rompendo com o grupo liderado por ACM Neto.
Embora Bruno tente minimizar esse tipo de movimentação, a realidade política e eleitoral brasileira mostra que prefeitos exercem, sim, um papel estratégico e influente nas disputas estaduais, mesmo que não sejam os protagonistas únicos da vitória.
Enquanto gestor da capital baiana, Bruno Reis sabe — mais do que ninguém — o quanto um prefeito pode influenciar uma eleição estadual. Em 2022, ele foi um dos principais articuladores da campanha de ACM Neto ao governo da Bahia, atuando diretamente para fortalecer sua base em Salvador e mobilizar a capital a favor do correligionário. Salvador, aliás, foi uma das cidades onde Neto teve melhor desempenho — reflexo claro da força política e administrativa de Bruno.
Na prática, prefeitos são líderes políticos centrais em seus municípios. Exercem influência sobre vereadores, lideranças locais, associações comunitárias e até meios de comunicação. Mais do que isso: eles organizam o partido na base, comandam estruturas de campanha, criam vínculos diretos com o eleitorado e aumentam o número de militantes engajados.
Bruno citou Valdir Pires como exemplo de um governador eleito sem o apoio da maioria dos prefeitos. É verdade. Em 1986, Valdir foi eleito governador da Bahia ao derrotar, com uma histórica diferença de 1,5 milhão de votos, Josaphat Marinho, então candidato do todo-poderoso ex-governador Antônio Carlos Magalhães. Foi uma virada simbólica e marcante, em um contexto nacional de redemocratização e efervescência política.
No entanto, esse é um caso raro e pontual, inserido em um momento histórico muito específico. A regra histórica mostra que prefeitos ajudam a construir — ou derrubar — projetos estaduais.
O próprio Jerônimo Rodrigues chegou ao governo com forte apoio de prefeitos, principalmente no interior, onde o Estado tem mais capilaridade que partidos. Ali, o apoio das prefeituras foi mais que simbólico: foi estrutura, voto e mobilização real.
Bruno está certo em um ponto: prefeito nenhum carrega eleição sozinho. O povo é soberano. Mas erraria quem desconsiderasse que os prefeitos são, muitas vezes, os intermediadores diretos entre o povo e os projetos políticos. São eles que organizam os territórios, que lideram as bases, que sabem quem está com quem em cada bairro, em cada distrito.
E mesmo assim, política não é matemática. Nem sempre a equação fecha. Às vezes, com toda estrutura e base, o projeto perde. Em outras, como no caso de Valdir, vence sem a base tradicional. Mas essa imprevisibilidade não anula a força dos fatores.
Bruno é a prova viva da influência que um prefeito pode ter em uma eleição estadual.
No fundo, ele concorda com o que a prática já mostrou: prefeito não ganha eleição sozinho, mas pode fazer muita diferença. E muitas vezes, faz.
Fernanda Dourado é editora-chefe do site Bahia Repórter, consultora e especialista em política, há mais de 20 anos. A jornalista é apresentadora e repórter da TV ALBA – Assembleia Legislativa da Bahia – onde apresenta programas políticos desde a fundação da emissora. Escreve neste espaço às quartas-feiras; Instagram e TikTok: @fernandadouradoreporter